Bronisław Malinowski, durante suas pesquisas entre populações indígenas, abria O Príncipe para não perder o fio de sua própria identidade intelectual europeia. A imagem é precisa: um antropólogo em campo, longe da Europa, que volta a Maquiavel como a uma bússola mental. Não busca consolo. Busca uma forma de lucidez. Um livro capaz de lembrá-lo de onde vinha o seu olhar sobre o poder, as instituições, os homens.
É a partir dessa cena que se abre a apresentação do livro O Príncipe, dedicada à nova edição em português da obra de Nicolau Maquiavel, publicada pela Editora Fósforo, com tradução, apresentação e notas de Emanuel França de Brito. O volume republica o texto de 1513 juntamente com a correspondência do autor com Francesco Vettori e Francesco Guicciardini, dois interlocutores decisivos para compreender a temperatura política e humana em que a obra amadureceu. Essas cartas revelam um Maquiavel menos marmóreo, atravessado por registros diversos: o pensamento sobre as grandes questões, a ironia, a confidência, o gosto pela vida concreta. Ao virar a página, o autor do tratado volta a ser homem entre homens.
O valor do encontro está precisamente aqui: retirar O Príncipe da vitrine das fórmulas fáceis e devolvê-lo ao seu laboratório vivo. Maquiavel escreve em meio à crise da República de Florença, observa a conquista e a conservação do poder, separa a ação política da moral tradicional e procura uma língua capaz de descrever os fatos sem suavizá-los. Virtù e fortuna não são conceitos ornamentais. São os dois polos de uma política exposta à força da ocasião, à capacidade de decisão, à pressão da história. A apresentação do livro O Príncipe será uma ocasião para ler essa pequena máquina de lucidez no ponto exato em que ela ainda arde.
Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, em 1469, e morreu em 1527. Foi filósofo, historiador, poeta e diplomata, formado pela cultura clássica greco-romana e pela experiência direta da política florentina. Além de O Príncipe, escreveu Histórias Florentinas, A Arte da Guerra, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio e a comédia A Mandrágora. Sua força está na capacidade de observar o poder como matéria concreta, feita de decisão, ocasião, audácia e risco.
Emanuel França de Brito
Emanuel França de Brito é professor de Língua e Literatura Italianas na Universidade Federal Fluminense, onde também atua no Programa de Pos-graduação em Estudos de Literatura, Poslit UFF. Na mesma universidade, participa dos projetos de monitoria, do Laboratório de Estudos da Tradução, Labestrad UFF, do Núcleo de Tradução e Criação, NTc UFF, e do Programa de Universalização em Língua Estrangeira, Pule UFF.
Graduou-se em Letras pela Universidade Federal do Paraná em 2006. Concluiu o mestrado em 2010, o doutorado em 2015 e realizou estágio de pós-doutorado entre 2015 e 2018 na Universidade de São Paulo. Foi pesquisador visitante nas universidades de Roma La Sapienza, Pisa, Salerno e Siena.
Seu trabalho considera a tradução como forma de crítica literária, com atenção especial aos autores do baixo Medievo e do Humanismo italianos, entre os séculos XIII e XVI. Entre seus principais trabalhos estão os volumes do Convívio e do Inferno, de Dante Alighieri, e da Retórica, de Brunetto Latini, organizados com introdução, tradução e notas. Publicou também os ensaios Tradurre il Medioevo in Tempi Post-coloniali e Dante entre o Furor e os Estudos.
Sua atividade reúne rigor filológico, competência histórica e atenção à recepção contemporânea dos clássicos italianos. Em suas traduções, o texto antigo é restituído ao leitor brasileiro como matéria viva de estudo e interpretação.
Realização:
Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro
Colaboração:
Editora Fósforo
Apresentação do livro ‘O Príncipe’, de Nicolau Maquiavel, com Emanuel França de Brito
Data: 17 de junho de 2026
Horário: 18h
Local: IIC Rio de Janeiro – Av. Pres. Antônio Carlos, 40 / 4º andar – Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Entrada: Franca. Para participar, inscreva-se online pela Sympla