A mãe acompanha o filho até a porta. Pergunta quando ele volta. Ele responde. Ainda não sabe que aquela será a última vez.
Dez anos depois, o filho conta.
O Aniversário começa dentro dessa distância. Andrea Bajani retorna à casa dos pais sem realmente entrar nela. Percorre os cômodos pela memória. Reencontra o telefone que pouco tocava, as amizades mantidas do lado de fora, as palavras medidas antes de serem pronunciadas. Acima de tudo, reencontra a mãe, que permaneceu ao lado de um homem que havia ocupado todos os espaços de sua vida.
O pai controla. Decide quem pode entrar, quanto tempo uma visita pode durar, que parte do mundo deve permanecer do lado de fora. A violência se deposita nos hábitos. Não precisa elevar a voz todos os dias. Basta que se transforme na regra da casa.
Enquanto isso, a mãe se recolhe. Abandona as amizades e reduz os próprios desejos. Procura existir no olhar do marido. O filho a observa já adulto e compreende aquilo que, quando criança, só conseguia sentir: naquela família, o amor havia aprendido a linguagem da posse.
Partir torna-se, então, um gesto concreto. Trocar o número de telefone. Mudar de endereço. Parar de voltar. O romance não transforma essa escolha em vitória. A liberdade conserva o peso de quem ficou para trás, e o filho leva consigo a mãe que precisou abandonar junto com o pai.
A escrita avança sem sobressaltos. Bajani não procura uma sentença nem prepara uma reconciliação. Mantém a voz firme enquanto a matéria se torna mais dura. É justamente essa calma que faz de O Aniversário um livro tão preciso: a família perde a proteção das palavras com que costuma ser narrada e volta a ser uma casa. Com suas portas. Com alguém que guarda as chaves.
Vencedor do Prêmio Strega e do Prêmio Strega Giovani em 2025, O Aniversário interroga o direito de se afastar de uma origem que continua exigindo obediência. Em julho, o romance estará no centro do quinto encontro da quinta edição do Clube de Leitura. A jornalista Cláudia Lamego conduzirá a conversa entre os participantes a partir da edição brasileira, traduzida por Iara Machado Pinheiro.
Andrea Bajani
Andrea Bajani nasceu em Roma, em 1975. Vive atualmente nos Estados Unidos, em Houston, onde leciona escrita criativa na Rice University. Sua obra transita entre a narrativa, a poesia e a reflexão sobre a linguagem, com atenção constante aos lugares em que uma vida ganha forma e às palavras que cada pessoa herda antes mesmo de poder escolhê-las.
Estreou na ficção no início dos anos 2000 e construiu, ao longo do tempo, uma trajetória reconhecível, distante das modas e das simplificações. Em seus livros, reaparecem figuras em movimento, casas abandonadas ou lembradas, vínculos familiares observados no ponto em que proteção e aprisionamento começam a se confundir.
Entre seus romances estão Se Consideri le Colpe, Un Bene al Mondo e Il Libro delle Case. Este último consolidou uma pesquisa narrativa construída em torno dos espaços habitados: casas reais, casas perdidas, casas transformadas em sinal. Em Bajani, a arquitetura conserva vestígios morais. As paredes escutam, retêm, devolvem.
Também publicou livros de poesia, entre eles Promemoria e Dimora Naturale. Com L’Anniversario, lançado pela Feltrinelli em 2025 e no Brasil pela Companhia das Letras, recebeu o Prêmio Strega e o Prêmio Strega Giovani. O romance marca um ponto de chegada em sua pesquisa: a casa familiar torna-se o lugar de onde é preciso sair para, finalmente, conseguir falar.
Realização:
Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro
Clube de Leitura apresenta ‘O Aniversário’, de Andrea Bajani
Data: 31 de julho de 2026
Horário: 18h
Local: IIC Rio de Janeiro – Av. Pres. Antônio Carlos, 40 / 4o andar – Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Entrada: Paga. Inscrições pelo WhatsApp: (21) 3534-4344