Uma raiz não avança em linha reta. Procura água, evita obstáculos, mede o terreno, muda de direção. Nesse movimento silencioso, Stefano Mancuso reconheceu uma forma de inteligência capaz de colocar em crise o modo como os seres humanos constroem cidades, hierarquias e futuro.
O botânico e escritor italiano apresenta em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro Fitópolis. A Cidade Viva, seu livro mais recente publicado no Brasil pela editora Ubu. O encontro aproxima o público brasileiro de uma das reflexões mais urgentes de seu trabalho: pensar a cidade a partir das plantas, de sua capacidade de comunicar, adaptar-se e resistir sem um centro único de comando.
Fitópolis propõe uma transformação profunda do olhar urbano. Para Mancuso, as cidades já não podem ser projetadas como corpos rígidos, separados do ambiente que as sustenta. Precisam funcionar como organismos vivos, capazes de absorver calor, distribuir energia, criar sombra, restabelecer relações com o solo e com a água. O mundo vegetal entra, assim, no debate urbano como modelo concreto, não como ornamento verde.
Em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, essa reflexão encontra duas paisagens diferentes e complementares. De um lado, uma capital marcada pelo desenho moderno, pelas montanhas e pela pressão do crescimento urbano. De outro, uma cidade em que floresta, mar, rocha e densidade convivem em tensão contínua. Em ambas, Fitópolis fala de uma questão imediata: a forma da cidade decide a qualidade da vida.
O livro atravessa exemplos que tornam visível essa tese. As oliveiras milenares da Sardenha mostram uma resistência feita de lentidão e adaptação. As experiências de arborização e pedestrianização de Curitiba indicam outra relação possível entre corpo, rua e vegetação. Mancuso não suaviza a crise urbana com imagens tranquilizadoras. Ele a enfrenta como um problema de inteligência. Em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, Fitópolis. A Cidade Viva chega onde o concreto aquece, a sombra falta e a cidade revela o modo como esqueceu de respirar.
Stefano Mancuso
Stefano Mancuso formou-se na Università degli Studi di Firenze, onde leciona arboricultura geral e etologia vegetal. Seu percurso científico nasce do estudo das plantas como organismos sensíveis, comunicantes e capazes de comportamento. Seu trabalho contribuiu para fundar a neurobiologia vegetal, campo que observa a sinalização e a comunicação entre plantas nos diferentes níveis da organização biológica.
Em 2005, fundou o LINV, International Laboratory of Plant Neurobiology, laboratório dedicado à pesquisa sobre os processos pelos quais as plantas percebem o ambiente, trocam informações e reagem a estímulos. Entre os temas centrais de seus estudos está o sistema radicular: as raízes, em especial seus ápices, são capazes de explorar o solo, orientar-se em direção à água e aos nutrientes, estabelecer relações com outras espécies e responder a diversas formas de solicitação.
Em 2012, participou do projeto Plantoid, voltado à concepção de um robô capaz de agir e crescer segundo princípios inspirados no mundo vegetal. Em 2014, abriu na Universidade de Florença uma start-up dedicada à biomimética vegetal, área que desenvolve artefatos tecnológicos inspirados nas capacidades das plantas. Desse percurso nasceu também a Jellyfish Barge, modelo de estufa flutuante pensado para produzir alimentos em contextos marcados pela escassez de solo e água.
Em 2018, recebeu o XII Prêmio Galileo de divulgação científica pelo livro Plant Revolution. Le Piante hanno già Inventato il Nostro Futuro. Sua pesquisa parte das plantas, mas acaba sempre interrogando o modo como os seres humanos constroem o próprio espaço.
Realização:
Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro
Editora Ubu
Apresentação do livro ‘Fitópolis. A Cidade Viva’, de Stefano Mancuso
Data: 6 de junho de 2026
Horário: 10h
Local: Inhotim – Rua B, 20 – Conceição do Itaguá, Brumadinho (MG)
Entrada: Franca
Data: 9 de junho de 2026
Horário: 15h
Local: Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro (RJ)
Entrada: Franca