Lucrecia Borgia entra para a História já cercada pela suspeita. Próxima demais de homens poderosos, útil demais às suas alianças, exposta demais ao olhar de quem, ao longo dos séculos, transformaria sua vida em lenda.
Dario Fo pega esse retrato e o vira do avesso.
La Figlia del Papa atravessa as cortes do Renascimento acompanhando uma mulher criada dentro de uma família em que o poder vem antes dos afetos. Alexandre VI é papa e pai. Cesar Borgia é irmão e homem político. Os casamentos de Lucrecia valem tanto quanto tratados diplomáticos. Cada relação pode ser desfeita quando muda o equilíbrio das conveniências.
Fo conhece bem esse teatro. Retira dos personagens a distância do retrato histórico e os coloca novamente em movimento, entre cálculo e medo, desejo e ambição. Lucrécia emerge assim da imagem construída em torno de seu nome. É jovem, observa. Aprende. Procura espaços de liberdade onde outros já decidiram por ela.
O romance conserva o gosto de Fo pela provocação política. Por trás da Roma dos Borgia, outra cena aparece continuamente, muito mais próxima: famílias transformadas em sistemas de poder, cargos distribuídos segundo vínculos e pertencimentos, moralidades proclamadas em público e desmentidas em privado. Fo usa o Renascimento como uma superfície refletora. Basta trocar as roupas.
Em setembro, La Figlia del Papa estará no centro do sétimo encontro da quinta edição do Clube de Leitura. A jornalista Cláudia Lamego conduzirá a conversa entre os participantes a partir da edição brasileira, traduzida por Anna Palma.
Dario Fo
Dario Fo foi dramaturgo, ator, diretor, cenógrafo e pintor. Sua concepção de teatro nasce do encontro entre tradição popular e intervenção política, da Commedia dell’Arte e das narrativas dos jograis. Uma cena construída pela voz e pelo corpo, capaz de virar uma história do avesso para revelar quem permaneceu escondido atrás de sua versão oficial.
Com Franca Rame, compartilhou grande parte de sua trajetória artística. Entre as obras que marcaram sua produção estão Mistero Buffo, Morte Acidental de um Anarquista, Não se Paga, Não se Paga!, Johan Padan a la Descoverta de le Americhe e Lu Santo Jullare Francesco. Em La Figlia del Papa, publicado em 2014, essa mesma vocação para a contranarrativa deixa o palco e passa à forma do romance.
Em 1997, Dario Fo recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A justificativa retomava explicitamente a tradição dos jograis medievais e sua capacidade de atingir a autoridade ao defender a dignidade dos oprimidos. É uma definição precisa da trajetória de um autor que passou a vida mudando o ponto a partir do qual a História é contada.
Realização:
Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro
Club di Lettura apresenta ‘La Figlia del Papa’, de Dario Fo
Data: 30 de setembro de 2026
Horário: 18h
Local: IIC Rio de Janeiro – Av. Pres. Antônio Carlos, 40 / 4º andar – Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Entrada: Paga. Inscrições pelo WhatsApp (21) 3534-4344